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Diário de Bordo

Diário de Bordo 2

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Pensávamos sobre a ancestralidade de suas pedras. Pensávamos a respeito de suas torres anciãs, sobre os infindos e castigados pés que lhes pisaram. Saudávamos a beleza opressora de sua catedral. Santiago de Compostela você não é digna dos peregrinos que lhe adentram. Compostela, seus peregrinos não lhe merecem.

Diamante maior da região da Galícia (Espanha), centro de peregrinação recebedor de milhares de pessoas conduzidas pela fé e pela força de vontade, Santiago de Compostela é circundada por uma intensa aura de misticismo e religiosidade. A cidade túmulo do Apóstolo Thiago, tombada em 1993 como Patrimônio Cultural da Humanidade, recebeu o segundo concerto da Orquestra Ouro Preto pela Turnê Países e Comunidades de Língua Portuguesa. As formas italianas do Teatro Principal, incrustrado no centro histórico de Santiago, foram palco privilegiado para a apresentação que aqueceu um chuvoso e frio 06 de maio da primavera europeia.

Anfitriã e convidada especial daquela noite, a festejada cantora Uxía avisava: “O público galêgo é entusiasta da música e espontâneo, muito parecido com o brasileiro”, premeditando uma grande apresentação. A previsão da trovadora galêga se conformou. Sobre a batuta do Maestro Rodrigo Toffolo, as harmonias emitidas pela Orquestra Ouro Preto amalgamaram-se às vibrações sonoras produzidas pelos sinos que, periodicamente, dobravam nas vertiginosas torres dos templos.

A noite foi marcada ainda por um momento raro. Dona de uma voz comovente e timbre emblemático, Uxía juntou-se ao grupo em duas peças que extasiaram o público presente. Cantora e Orquestra interpretaram Melodia Sentimental de Heitor Villa-Lobos e Unha Noite na Eira do Trigo, dos galegos Curros Enríquez e Mestre Chané. Naquele curto período de tempo, as distâncias geográficas e particularidades culturais que separam Brasil e Galícia deixaram de existir.

No saguão de saída, após longos minutos de aplausos e ovações, uma simpática senhora, acompanhada de seu esposo, comentava em um galêgo de fácil entendimento: “Estou, realmente, surpreendida”.

Por Saulo Rios.

Foto: Naty Tôrres.

 

Diário de Bordo 1 Orquestra Ouro Preto em Coimbra

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Após uma verdadeira odisseia, a Orquestra Ouro Preto finalmente desembarcou na Europa, mais precisamente em Portugal, dando início à Turnê Países e Comunidades de Língua Portuguesa. Em parceria com a Missão do Brasil junto à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, patrocínio da Petrobras, apoio da Galpenergia e da Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais, o projeto prevê uma série de concertos em países e regiões que têm o português como língua oficial, com o objetivo de difundir a música brasileira de concerto contemporânea e promover diálogos com acervos musicais e artistas dos países visitados.

Odisseia é de fato a palavra que sintetiza o caminho percorrido pelos músicos e equipe de produção da Orquestra Ouro Preto, conduzidas pelo Maestro Rodrigo Toffolo.  Do ensaio que antecedeu o embarque em Belo Horizonte até a chegada em Lisboa, foram mais de 24 horas de viagem.

Primeiro compromisso, Coimbra. Importante cidade lusitana, centro cultural de reflexão e prática científica, abriga a Universidade de Coimbra, uma das mais antigas da Europa. Nela estudaram parte dos revolucionários que ajudaram a fundamentar o pensamento ideológico libertário e viriam a participar do movimento de independência do Brasil conhecido como Inconfidência Mineira. As ruas, a arquitetura e o espírito universitário da cidade guardam tantas particularidades com Ouro Preto que é difícil não compará-las. Coimbra Primogênita e Ouro Preto caçula. Musa inspiradora e criação, respectivamente.

O concerto na cidade deu-se, exatamente, no mesmo final de semana em que Coimbra promovia a maior festa universitária do mundo: a Queima de Fitas. Nesta época, Coimbra recebe milhares de jovens e estudantes de toda a Europa. Para se ter uma ideia do tamanho do evento, basta imaginar que a “Color Run”, Corrida das Cores, evento esportivo que aconteceu paralelamente à festa, contou com 12 mil pessoas inscritas.

A estreia foi no Pavilhão do Centro Cultural de Portugal, às margens do Rio dos poetas, Mondego. Um concerto que aliou poesia, emoção, intensidade e a distinta performance comum às apresentações da Orquestra.  As obras executadas pelo grupo promoveram um breve momento de silêncio à cidade, frente à enorme festa que havia lá fora. O Concertino para Vibranfone, com solo do percussionista Sérgio Aluotto, o Concertino para Violoncelo e Orquestra, tendo como solista Hugo Pilger ao cello e a Suíte Buenos Aires Siglo XX, com o bandoneonista Rufo Herrera, marcaram a estreia diante de um público extasiado. Ao fim, empolgado, o público aplaudiu efusivamente, clamando por um mais momentos de silêncio, quiça minutos, como aquele tempo de bonança proporcionado pela Orquestra Ouro Preto.

Por Saulo Rios.

Foto: Naty Tôrres.